Estranha Viagem ao Século XIX

(trecho do meu livro) 

                        Clarival Vilaça


               Quem sabe o que se passa no interior do nosso cérebro? O que produz realmente o lampejo do pensamento, o surgir de uma ideia? Quem verdadeiramente seria capaz de descrever o funcionamento de nossa usina de elucubrações?   Sabemos que poucas  partes do corpo humano são tão misteriosas quanto aquela que provavelmente  mais utilizamos no dia a dia.

              Ainda hoje nos assustamos com a capacidade do cérebro de  guardar e  recuperar informações. Somos capazes de lembrar cenas, rostos, situações, de muitos anos passados. E às vezes não nos lembramos de coisas que fizemos ontem.

             Nosso cérebro, por outro lado, nos induz a erros, equívocos provocados por   uma interpretação dúbia, avaliação amparada em visões incorretas de cenas e   sobretudo,   por fortes emoções. Assim, numa rua escura, pensamos ver vultos, sombras. Quando apaixonados, vemos beleza onde esteticamente, ela está ausente.  Se somos  hipnotizados, podemos fazer coisas que em sã consciência,  jamais faríamos.  E finalmente, quando estamos desesperados o cérebro adota duas posições: ou reage rapidamente  oferecendo uma solução ou se desliga, provocando um desmaio e nos livra (?) do problema,  pela via da fuga.

           Não é assim que os médicos e cientistas descreveriam o cérebro. Entretanto é  desse modo que um leigo o vê. Este livro pode conduzir o leitor a duas posições diversas: ou ele aceita que o cérebro humano é capaz de criar ilusões quase inacreditáveis,  ou que   há mais coisas entre o céu e a terra, do que tudo que conhecemos.

          Expõe-se aqui um mistério de interpretação que só poderia ser solucionado  aceitando-se uma das duas opções oferecidas. Caso o prezado leitor aceite que é possível   nos deslocarmos de um a outro ponto,  de um a outro tempo, sem nos movermos,  então não há mistério  na presente narrativa.  Mas se ele duvida de que isso seja possível,  deverá crer então que  o  cérebro é o único culpado de se ter criado uma inusitada situação,   fruto de uma simples ilusão, de fértil imaginação.

          Não importa. O leitor pense o  que quiser.  Conto aqui o que aconteceu, como me foi contado.  Repito o que ouvi.  Também não importa se acreditei ou não. A verdade pertence a cada um. E a verdade não é a mesma para todos.  O que fica e o que  importa é que uma história, ficcional ou não,  foi narrada e escrita.  Que o leitor viaje comigo  nessa aventura.

          Mas antes, é preciso que a mente de que falamos no início,  seja burilada,   seja acariciada,  para que não se rebele com o que lhe chega,  através dos olhos e dos  sentimentos.  A mente preconceituosa dificilmente aceita aquilo que não conhece.  É  portanto necessário que haja entre o leitor e sua mente uma conversa franca  e  amiga,  ao   fim da qual ela passe a aceitar fatos estranhos,  que jamais penetraram em   seus   neurônios, nunca foram processados em suas entranhas, enfim, que ela passe a  aceitar o normalmente inaceitável.

         Por que não peço aqui a crença do leitor no que escrevo, mas apenas a dúvida razoável? Porque o leitor, que não é idiota, sabe selecionar aquilo em que deve e em que não deve acreditar, aceitar, assimilar. Peço um voto de confiança, peço condescendência, paciência, que às vezes, não posso evitar,  sou prolixo.  Tendo acordado o leitor com o dito aqui, devo então levá-lo ao que me foi contado.

        Estamos nos dias finais da década de 90,  próximos ao ano 2000.  O homem já  chegou à lua e busca vida em outros planetas. A medicina cria a cada dia  novas  máquinas, novas aparelhagens, que conseguirão em breve erradicar doenças   antes  incuráveis. O mundo pode ser alcançado de dentro do seu quarto, com  um  pequeno  computador  pessoal. Os carros trazem aperfeiçoamentos que seus proprietários levam meses para descobrir que existem. É um mundo de tecnologia ao qual nosso cérebro procura  se adaptar.

     E sabemos que isso não é fácil e a prova é que sempre procuramos ver nos robots ora construídos uma pessoa em seu interior.  Embora informados de que é um  engenho eletrônico e mecânico,  nos recusamos a crer que ele possa andar e subir escadas, sem que dentro dele exista alguém fazendo aqueles movimentos.

      É nesse fim de década que conheceremos Juliano e  percorreremos  parte  de  sua vida e toda sua incrível aventura...

 


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