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Meu Canto em Prosa e Verso


  [aumente o som para ouvir Luiz Vieira]

BIOGRAFIA

                                                                                                                                                             Clarival Vilaça

          Nasci em Santo Antonio de Pádua, norte do Estado do Rio de Janeiro e vivia com meus pais, ela dona de casa, ele telegrafista dos Correios. Meu pai morreu quando eu tinha meus três anos, se tanto, por isso pouco lembro dele, quase  nada. 

           Éramos pobres, descendentes de imigrantes italianos, nenhum ramo da família conseguiria fazer fortuna por aqui. Mas todos trabalhavam duro. 

           Antes de completar sete anos, eu remava um barco até a outra margem do Rio Pomba sozinho, onde colhia uma planta chamada "gigoga" (Eichhornia crassipes), com a qual alimentava nossas galinhas. Essa planta. bem mais tarde, em janeiro de 2006, infestava as praias do Rio de Janeiro.

           Mas ao sete anos de idade, eu já descobrira o prazer de explorar. Desbravava barrancos e vencia a mata rala próximos de nossa casa, em Pádua.

           Em 1952 no mudamos para o município de Campo Grande, subúrbio do Rio de janeiro, mais precisamente para o bairro de Vila Nova.     

           Fôramos chamados por minha tia, que se casara e queria que todos morassem juntos. Meu pai havia morrido e minha mãe, sempre bonita, foi cortejada por quem se tornaria depois, meu padrasto, que morreu aos 90 anos de idade.  

          Moramos dois anos lá, mas meu avô não estava bem e fomos aconselhados pelo médico a procurar um clima melhor. Achamos um terreno e o compramos, em Alcântara, distrito de São Gonçalo, ainda no Estado do Rio de Janeiro. Construímos uma casa de qualquer jeito apenas para podermos mudar e logo nos ajeitamos ali.          

          Meu avô morreu numa segunda-feira e meu tio, na quarta-feira seguinte. A dor que minha avó sentiu perdendo dois entes queridos em três dias, é algo que jamais esquecerei. Ela dormia com uma foto do filho sob o travesseiro para tentar sonhar com ele. Uma mulher maravilhosa. Sempre tive a cobertura dela para as artes que fazia. Quantas vezes me escondi atrás de sua saia larga, para não apanhar de chinelo. 

         Otília era seu nome. Ela morreu depois que me casei e sabia que ia morrer. Disse-me uma vez: "que pena, não vou conhecer meu neto..." .  Agora, quando olho para minha filha ou para meu filho, penso nisso e me dá um aperto no coração.  

         Mas voltemos a 1954, em Alcântara, onde moro até hoje. Desfrutei aqui de uma infância como poucos têm a oportunidade de vivenciar. 

          Meus dias eram perdidos em longos passeios pela região, sem destino. Pisei em locais onde hoje se erguem enormes edifícios, bancos, e que eram naquela época meros terrenos baldios. Visitei com meus amigos, prédios em construção que hoje ostentam nomes pomposos. E  gravei na memória para sempre o quanto foi bom. Eu era um espírito livre, sem compromisso com nada.

       Amores foram muitos, ainda na infância. Amei Maria aos 9 anos. Amei outra Maria aos 10.  Amei a bilheteira do cinema dos fins de semana. Nunca me preocupei em saber qual era  o filme, gostava mesmo era de ficar olhando aquela mulher magra e triste, que ficava horas de pé, recebendo e rasgando bilhetes. Eu tinha ímpetos de matar o dono do cinema, que a explorava. Não me lembro quando esse amor platônico acabou.

      Quando me mudei para Alcântara, nossa casa não tinha luz. A casa de Maria também não. Brincávamos à luz de lamparinas e "Pera, Uva ou Maçã?" era nossa predileta. Fingíamos fechar os olhos e escolhíamos sempre quem queríamos beijar (Pera? Uva? De jeito nenhum!). Eu sempre escolhia Maria, fingindo ter acertado de olhos fechados quando alguém  perguntava: "É essa? É essa?". "Pera, uva ou maçã?". Eu escolhia sempre "maçã" e ganhava  um beijo. O beijo cada vez era dado mais junto da boca e à luz das lamparinas, escancarávamos e nos beijávamos com vontade. Na penumbra, ninguém se preocupava em ver minha mão acariciando as coxas de Maria, que deixava e incentivava a que eu continuasse.                                                     

        Nunca fomos oficialmente namorados, mas fazíamos coisas deliciosas, que os namorados fazem. Me pergunto às vezes, por onde andará Maria, rosto lindo, coxas firmes e sedosas.


        E voltando ao lado sério, comecei a trabalhar com 14 anos, numa fábrica de Coloral   (um preparado feito de urucum, utilizado para dar cor aos alimentos, principalmente o arroz).  Era trabalho duro para um garoto da minha idade. Mais tarde passei a trabalhar como responsável por uma banca de jornais em Icaraí, no final da rua Cel Moreira César  (passei lá outro dia e relembrei, olhando por ali, o local exato onde ficava a minha banca de jornais, ao lado de uma farmácia que ainda existe, agora com outro nome). Depois mudei para uma banca de jornais na Rodoviária de Niterói. E logo depois passei a vender passagens de ônibus, nos guichês dessa rodoviária.  

       Finalmente fui trabalhar na Maveroy Indústria e Comércio de Geladeiras (Kelvinator) onde fiquei  aproximadamente um ano até que chegou o momento de servir à Pátria.

         Nesse ínterim, eu estudava à noite fazendo o ginasial. Outro belo período de minha vida. Eu havia conhecido Dona Maria Francisca, no Admissão (um ano de curso de acesso ao ginásio), e no ginásio (repeti o admissão, porque ao tentar estudar em outro colégio tive problemas com a diretora e pedi para sair. Só que quando retornei ao antigo colégio, não havia mais vagas para o ginásio ), conheci gente incrível, que gravou a fogo na minha memória sua passagem pela minha vida. Conheci dona Helenice (História), um professor cearense de geometria muito engraçado e um professor de latim afetadíssimo. Os nomes fogem céleres mas a lembrança é vívida. Conheci Marlene, por quem me apaixonei, namoramos mas nunca nos beijamos, que ela era muito recatada. Conheci Neide Almeida e Nancy Faria, irmãs, que alteraram o sobrenome depois do casamento. Eu achava a Nancy uma gracinha (ela nunca soube mas eu passava boa parte do tempo de aula apenas olhando pra ela, era  de uma beleza rara e hipnotizante). Tinha a Regina, a Elvira, ambas lindas, o Bira, o Dario, o Fernando Assumpção, o Farid, a Dilene, a Terezinha, a Maria da Guia, a Edith, o Edison Pimentel, a Diretora, Dona Marlene Salgado, hoje dona das Faculdades Universo,  o Alfredo, o Romildo, ah, tanta gente de que não lembro o nome hoje, tantos anos passados. Algumass delas voltei a encontrar pela internet e foi mais uma emoção poder falar com amigos da juventude.

           Me apresentei no 3º Regimento de Infantaria, em São Gonçalo, mas insuflado pelos colegas, pedi para me apresentar na Brigada de Infantaria Aeroterrestre (hoje Brigada Paraquedista). Fui e passei em todos os testes ficando lá por nove anos seguidos. (todos os colegas que foram comigo, ou não conseguiram ser aprovados nos testes, ou,  mais tarde, não conseguiram terminar o curso de paraquedista). 

          Só então resolvi retornar ao primeiro Quartel, onde fiquei mais 20 anos e passei para a reserva, sem sofrer sequer uma punição e  com dezenas de elogios na minha ficha.

       Minha vida na caserna deverá constar de um livro que ainda estou preparando. Depois disso passei a brincar com a Internet (1995) e quando posso, ainda dou minhas caminhadas pelos locais mais agrestes que encontro por aqui. À noite, via um filme de vídeo (tinha 250 filmes gravados, ainda em fitas VHS, agora abandonadas pela TV por assinatura ou DVD), leio algum livro ou, mais frequentemente, vejo canais de  TV  como o Discovery ou o National Geographic, ou o Animal Planet, que têm todos bons documentários, e os canais de filmes. Ah, tem a internet, de muita utilidade.


       As emoções ficaram no passado e vivo da lembrança delas. O nascimento da minha  filha em 75, do meu filho em 80, são a minha contribuição para a explosão demográfica no mundo. Me casei em 1969 (descida de Neil Armstrong na Lua) com a mulher que escolhi e namorei por 10 anos. Vivi com ela mais 37 anos depois que casamos, na mais completa felicidade, até que o câncer a tirou de mim, em 10 de fevereiro de 2006 .  Pra me aguentar todo esse tempo devia ser a pessoa mais paciente do mundo. Que falta me faz. Que saudades ainda sinto dela. 

        A música que você está ouvindo retrata minha Sueli e ainda diz pouco. Ela era mais que tudo isso. 



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