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    A  Página  da   Sueli

         Leia enquanto ouve

                "Smile"

      "Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia assim! de um sol assim!

                               Olavo Bilac


 

 

                                   A não mais de 40 metros da minha casa passava a via férrea.    Ao lado dela um aqueduto com cerca de um metro de diâmetro. Havia um pontilhão sobre um pequeno riacho e sobre ele passavam ambos: o trem e a água conduzida pelo aqueduto.

                                   Os escolares podiam  passar pelo  pontilhão com certa segurança mas sempre preferiam se equilibrar caminhando ou correndo sobre o  aqueduto.  O pontilhão cobria parte da visão que eu tinha do   local, mas da minha janela eu podia ver  perninhas se  movendo sobre o cano abaixo do pontilhão e ombros e cabeças acima dele. Sempre sorridentes e cheios de energia, lá iam eles para o colégio, se arriscando a cair de uma altura de quase dois metros num filete de água ainda límpida naquela época.

 

                                           Creio ter sido essa a primeira vez que a vi. Pernas grossa e roliças, rosto rosado e cabelo amarrado em coque. Mais tarde vi que tinha olhos amendoados e um  sorriso luminoso.

 

                                           Estávamos na segunda metade da década de 50, Getúlio era uma lembrança e Juscelino prometia cinquenta anos em cinco.

 


 

            

     Terminava a década e éramos namorados. Aqueles namoros de pegar na mão e do beijo conseguido a duras penas e muito rapidamente correspondido.  Era 1965 e ela queria se casar. Eu disse não. Eu não tinha emprego garantido e não podia correr o risco de passarmos dificuldades. Era 1966 e ela voltou ao assunto. Eu tinha emprego seguro, mas respondi não, mais uma vez. Não tínhamos uma casa e eu me recusava a pagar aluguel. Então, comprei um terreno, onde construí uma casa menor. Abriguei a todos: ela, a mãe e o irmão. Então construí nossa tão almejada casa própria.  

                     Era então 1969 e quatro meses antes de Neil Armstrong dar os primeiros passos  na lua, nos casamos (março). Demorou, mas em 1975 nasceu a Vanessa e em 1980, o Ricardo. Nossa família estava formada e restava viver.                                                               

 

 

                     A vida militar sempre exigiu muito de mim, mas sempre fui dedicado ao trabalho e por isso, servi por 30 anos sem atropelos  e depois me transferi para a reserva do Exército. Foi quando ela me disse  desconfiar  que tinha um nódulo no seio. Corremos para o médico ginecologista, que deu diagnóstico errado, garantindo que ela nada tinha, sem pedir exames, e seis meses depois ela me garantiu que sim, havia algo em seu seio esquerdo. Voltamos ao médico, dessa vez especialista, e ele pediu exames  confirmando o nódulo. (...) nesse parêntese, coloque tudo que quiser: cirurgia, radioterapia, quimioterapia, medicamentos, sofrimentos de toda sorte provocados pelo tratamento, etc.

 

 

    

                         Estávamos em 2006. Foi-se o mês de janeiro e desde agosto de 2004 Sueli fazia quimioterapia usando apenas comprimidos. Até o final de 2005 esteve bem, mas janeiro de 2006 transcorreu muito feio. Ela perdeu o apetite por completo, começou a devanear, a não reconhecer coisas e pessoas, o olhar perdido em algum sonho de sua mente  Nos pareceu, pelo menos a mim, que ela não iria torcer pela Beija-Flor naquele ano. Eu temia isso. Mas desejava sempre que ela pudesse ficar mais tempo conosco.

                         Sueli faleceu em 10 de fevereiro de 2006, depois de muito sofrimento. Eu a conheci há 46 e depois de casarmos, ficamos juntos por 36 anos, 11 meses e 10 dias. Será muito difícil apagar tudo isso do HD na minha cabeça.

                          Viverei das boas lembranças de tudo que fizemos e vivemos juntos.   Nessa existência não há mais nada pelo que lutar, não há objetivos a alcançar, nem alegrias a viver. Estou apenas esperando. Se existe um céu de Sueli, nos veremos por lá.         

                           PS: Nessa homepage há muito mais sobre ela, mas o link está oculto e é difícil de achar. Quem o fizer terá a surpresa de saber o quanto ainda podia ser dito. É como um diário íntimo. Meu e dela. 

                                                                                 

 


 

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